






No dia 19 de Junho despedi-me da minha mae que nos veio visitar, de Chicago e embarquei numa nova aventura. Desta vez iriamos percorrer 3500 km de carro atravessando os USA em 3 dias e meio rumo a California. Ha de facto muito asfalto entre Chicago e Sao Francisco quase tanto como entre Lisboa e Varsovia, mas sem sair do pais! Nos USA as escalas sao diferentes e o pais tem uma dimensao tal que justifica o desinteresse dos americanos pelo resto do mundo.
Era a nossa primeira grande viagem em familia e estavamos por isso curiosos e entusiasmados. O pediatra nao se opos a ideia aconselhando no entanto a parar de 2 em 2 horas para assegurar as necessidades do bebe o que fez com que o ritmo desta road trip fosse suave q.b. para assimilar tudo o que iamos vendo.
A semelhanca de Cristo na historia da humanidade, o nascimento do Antonio dividiu a minha vida em duas eras distintas: A.A. e D.A.. Nao digo isto apenas porque o nascimento de um filho abala a alma do mais insensivel dos mortais, mas porque ha de facto uma rotura com os habitos antigos, com a individualidade e com as prioridades e escolhas que fazemos. Tudo muda mas e o tempo quem sofre a maior metamorfose.
Decorreu um mês e meio desde que o António nasceu. A aventura que começou na minha lua-de-mel na Ásia terminou no Women's Hospital da Northwestern University em Evanston. Depois de semanas de ansiedade e dois falsos alarmes que nos levaram ao Hospital na certeza que seria dessa, tinha começado a pensar que iria ficar grávida para sempre! Cheguei a dizê-lo com convicção à enfermeira que me assegurou que tal não iria acontecer e de facto, após 40 semanas e 5 dias de gestação, a espera acabou. 1.4. A Filosofia do Carro-Casa: todos os carros são salões. Devem ter poltronas confortáveis para sentar a família e muito espaço para esticar as pernas. É como estar em casa! Todos têm aquele tipo de pormenores tal como porta-copos para as coca-colas e tecnologias de ponta tipo GPS e um bom sistema de som. O condutor americano conduz ao ritmo de quem vê um filme no sofá;
Quem espera desespera...já passaram 39 semanas e meia mas ainda não deu a cara. Isto não quer dizer que não dê sinais da sua presença, mais do que isso, marca de forma clara o território que agora lhe pertence com queixas dos vizinhos estômago, bexiga e outros orgãos que vêm dificultado o seu trabalho diário pelo cada vez menor espaço disponível para o fazer.
Ontem fomos às compras a um centro comercial aqui perto. O Pinguim precisava de uns jeans novos e eu tinha um vale de desconto no Bloominglade's (uma espécie de El Corte Inglês) para usar nos próximos dias. Após a prova de alguns modelos decidiu-se por uns com ar "jovem" apropriados à sua nova rotina de estudante. Quando fomos pagar pedimos o tal desconto e apercebemo-nos de dois jovens afro-americanos com ar atlético e look streetwear que também ali se abasteciam de calças de ganga. Um deles levou uns 8 pares e pagou nem mais nem menos do que 1500 dólares. Enquanto a cena decorria os dois observavam-nos e eu, acostumada a que olhem para a minha enorme barriga, achei até bastante normal que o fizessem. De qualquer forma, o pagamento com um cartão visa dourado daquela quantia toda em jeans pareceu-me bastante invulgar e comentei com o Pinguim se seriam daqueles miudos dos gangs com poder de compra muito acima da média para a pouca idade que aparentavam ter. Quando finalmente chegou a nossa vez, o Pinguim comentou a sorrir com o vendedor que se sentia embaraçado em pedir um desconto de 15 dólares quando alguém antes dele dispendera um montante tão avultado em roupa. O vendedor surpreso perguntou "não sabe quem era?Era Ben Gordon o jogador de NBA dos Bulls!"
E assim estou na recta final da maior aventura da minha vida!Desde que começou passaram 241 dias ao longo dos quais fui sofrendo uma transformação gradual no meu físico e mente de forma a ser hospedeira da minha herança no mundo.Gerar uma vida nova é maravilhoso mas requer disponibilidade, dedicação e algum sacrifício confesso. A primeira grande mudança que senti foi o impacto psicológico. Ser mãe aos 31 anos comporta uma maior consciencialização das consequências que daí advêm. Não imagino nada tão poderoso e ao mesmo tempo tão desafiante como colocar um ser humano no Mundo. Até agora tenho-o protegido dentro de mim e consigo dar-lhe tudo para que se sinta bem ainda que tenha cedido parte de mim e do meu bem estar (especialmente nesta fase final).
Tudo mudará no entanto quando o António decidir vir ao mundo. Sofrerá no processo de nascimento, a sensação de bem-estar desaparecerá, sentirá pela primeira vez frio, fome e os seus pulmões vão doer quando respirar pela primeira vez. Terá a sua primeira sensação de abandono e desde logo me alertará para a difícil tarefa de conseguir que seja feliz. É uma responsabilidade tão grande que minimiza todas as mudanças que o meu corpo sofreu até então.
Por ele a minha barriga quadriplicou, o meu sangue tornou-se mais rápido, o meu coração acelerou, o meu apetite aguçou, as minhas pernas incharam, dormi mais para que descansasse, deixei de dormir porque se agitava, ri mais e chorei mais também! O meu corpo enfim, dilatou e cedeu todo o espaço que tinha para receber os seus cada vez mais longos e potentes pontapés. Por ele preparo-me com medo para as horas penosas que ainda hão de vir (falta pouco mais de um mês) ...por ele o que eu não faria???
A metamorfose deu-se dentro de mim, deixei de ser filha para passar a ser Mãe. Haverá mudança maior do que esta?
Já falta pouco para a partida! A ansiedade começa a aparecer e os dias passam a "conta-gotas". É como se estivesse na recta final de uma época de exames já farta dos livros e a pensar em praia mas com o alento de só faltar mais um para terminar...um misto de excitação e desespero portanto.
Hoje de manhã tive consulta de obstetrícia. Levantei-me entusiasmada e preparei-me meticulosamente para o rendez-vous com a balança da maternidade. Esta balança é de uma precisão irrepreensível!!não deixa escapar a oscilação de gramas sendo por isso usada pelos médicos. Desenvolvi uma fobia à maldita máquina por saber o responso que apanho sempre que ouso por-lhe os pés em cima.
Após um mês e meio de abstinência decidi retornar à blogosfera e alhear-me das inúmeras pequenas tarefas quotidianas com que me ocupei nos últimos tempos. É perverso o comodismo das pequenas coisas úteis, se por um lado nos ocupam o tempo e a mente na preocupação de fazer o mais rápido e o melhor possível, por outro, desviam-nos a atenção das coisas que realmente apreciamos. Vemo-nos de repente embalados num rame-rame de inúmeros afazeres absolutamente aborrecidos mas inequivocamente essenciais para que o dia-a-dia flua de feição...podemos estar nisto anos, uma vida inteira sem que nos apercebamos de como fomos inteiramente desviados dos grandes e nobres planos para que fomos destinados neste mundo.
